segunda-feira, 6 de outubro de 2014

Diário Sonoro

Domingo, 05/10

Diário 1  
No início da gravação, o silêncio é absoluto. Passados alguns segundos, ouve-se o som característico de interferência no rádio. Alguns pássaros ao fundo. Poucos sons de automóveis.  Sensação de tranquilidade e paz – talvez até o que se definiria como o “marasmo do domingo”.

Diário 2
Sons de carros, vozes, o vento assobiando continuamente, alguns chiados “indecifráveis”, sons de pássaros, gritos provindo da rua, sons de televisão, buzinas, inúmeras conversas provindo da rua. O movimento do dia atribui-se às eleições. O pequeno aglomerado de gente e suas vozes enchendo as ruas num domingo atípico.

Diário 3
Sons de patas de cavalo, continuamente. Logo em seguida, carros e motos. Conversas, gritos e bastante movimento nas ruas. Mais sons de automóveis – um em particular com o motor bastante ruidoso. Combinando o pacato e a calmaria que penso sentir ao reconhecer o som de patas de cavalo – porque o atribuo à fazenda e à tranquilidade – com os ruídos da civilização com tantos carros circulando.

Diário 4
De início, apenas silêncio. Logo em seguida, o silêncio é cortado por sons de fogos. Barulho de embalagem abrindo. Som de minha própria respiração. Mais fogos, muitas buzinas. As pessoas comemoram o resultado das eleições em polvorosa. O que sempre foi muito comum em minha cidade. Ouve-se gritos e outros ruídos “indecifráveis”.

Diário 5
O áudio começa com meu riso. Foi gravado enquanto meu pai e eu estávamos conversando no carro. Como sempre, ele me faz rir demais. Faz um tanto de chacota por não compreender porque eu vou ao Centro Espírita. A voz dele se faz brincalhona até quando conversamos seriamente (eu rio a começar por essa voz). Continuo rindo incessantemente escutando comentários como “você vai ver espírito?”, “você tá indo lá pra namorar no espírito”. Meu pai é hilário. E eu tenho mais é que rir diante dessas coisas. 90% do áudio é preenchido por minhas risadas.

Diário 6
Silêncio. Após algum tempo, som de um suspiro. Som da vibração do celular. Sons que eu produzo ao tentar me ajeitar na cama antes de dormir – mexendo nos lençóis e travesseiros. Ouve-se, ao fundo, uma das músicas que gosto bastante tocar no rádio (Ode to My Family – The Cranberries), com alguns ruídos e chiados de interferência acompanhando a voz da Dolores O'Riordan. Sons de minha respiração. Silêncio quase absoluto – excetuando-se o rádio com a música e os ruídos. Som de tosse. Breve instante de silêncio.



                Repetindo a experiência no segundo dia (segunda, 06/10), percebi que os detalhes foram mínimos. Percebi que é mais difícil do que parece ouvir o mundo de fato. Vozes, carros, ruídos... Tantos sons nos permeiam! E quase não escutamos: apenas ouvimos.
                Uma colega pontuou que, talvez, a nossa visão “atrapalhe” a nossa audição: procuramos, na maioria das vezes, ver o mundo e não necessariamente escutá-lo. Ver nos distrai da percepção sonora, algumas vezes. Por isso, foi difícil me ater a detalhes mais precisos e profundos; não houve uma análise mais criteriosa e/ou minuciosa quando eu pude ver a fonte dos sons.
                Alguns sons se repetiram com certa frequência: carros, motos, conversas, gritos, sons de televisão e rádio. Todavia, a descrição não fora rica. Ouvi, mas não escutei, muito menos entendi. Não encontrei mais clareza ao tentar descrever.
                Nesse ínterim, minha conclusão quanto a esse exercício é que sou muito mais desatenta em alguns aspectos do que eu mesma julgaria. Quase nunca se tem tempo, acredita-se, para escutar o mundo de fato. Escutar as pessoas e entender o que elas querem dizer; ser ouvinte atento a mais fatores do que simplesmente poluição sonora (o canto dos pássaros, por exemplo, é tão singular e apaziguador e, na maioria das vezes, nem ouvimos nem escutamos); valorizar também o silêncio, quando se percebe a desarmonia que certos ruídos nos provocam; sentir alguns sons e associá-los sinestesicamente a outros fatores. A nossa audição também pode ser treinada para além do que a convencionamos. Da mesma forma que é preciso enxergar além, também é necessário escutar além. Logo, busco agora não subjugar um sentido ao outro, mas sim potencializá-los concomitantemente, completando-os através das percepções oriundas de ambos.



Natália Oliveira

_______________________________________________________
Os Sons do Silêncio
(autor desconhecido)

         Um rei mandou seu filho estudar no templo de um grande mestre com o objetivo de prepará-lo para ser uma grande pessoa.
         Quando o príncipe chegou ao templo, o mestre o mandou para uma floresta. Ele deveria voltar depois de um determinado tempo, com a tarefa de descrever todos os sons da floresta.
         Quando o príncipe retornou ao templo, após um ano, o mestre lhe pediu para descrever todos os sons que conseguira ouvir.
Então, disse o príncipe:
        - Mestre, pude ouvir o canto dos pássaros, o barulho das folhas, o alvoroço dos beija-flores, a brisa batendo na grama, o zumbido das abelhas, o barulho do vento cortando os céus...
        E ao terminar de ouvir o relato do príncipe, o mestre pediu-lhe que retornasse à floresta para ouvir tudo o mais que fosse possível. Apesar de intrigado o príncipe o obedeceu, pensando: "Não entendo, eu já distingui todos os sons da floresta..."
       Por dias e noites, novamente, ficou sozinho ouvindo, ouvindo, ouvindo... Mas não conseguiu distinguir nada de novo além daquilo que havia dito ao mestre. Porém, certa manhã começou a distinguir sons vagos, diferentes de tudo o que ouvira antes.
      E quanto mais prestava atenção, os sons mais claros se tornavam. Uma sensação de encantamento tomou conta do rapaz. Pensou: Esses devem ser os sons que o mestre queria que eu ouvisse...
      E, sem pressa ficou ali ouvindo, ouvindo pacientemente. Queria ter certeza de que estava no caminho certo.
     Quando retornou ao templo, o mestre lhe perguntou o que mais conseguira ouvir.
     Respeitosamente, o príncipe lhe disse:
     - Mestre, quando prestei atenção pude ouvir o inaudível som das flores se abrindo, o som do sol nascendo e aquecendo a terra e da grama bebendo o orvalho da noite...
     O mestre, sorrindo, acenou com a cabeça em sinal de aprovação e disse:
     - Quando se aprende a ouvir o coração das pessoas, os seus sentimentos mudos, seus medos não confessados e suas queixas silenciosas, uma pessoa pode inspirar confiança ao seu redor, entender o que está errado e atender as reais necessidades de cada um.  A nossa morte começa quando ouvimos apenas as palavras pronunciadas pela boca, sem nos atentarmos para o que se passa no interior das outras pessoas, a fim ouvirmos os seus sentimentos, desejos e opiniões reais.
     É preciso, portanto, ouvir o lado inaudível das coisas, o lado não mensurado, mas que tem o seu valor, pois é o lado mais importante do ser humano.






sábado, 4 de outubro de 2014

A cor da terra


A pequena fração de terra que escolhi pertence à Fazenda São Bento, e por que não dizer também, à minha infância?
        A fazenda foi construída por Antônio Jorge Midlej, meu bisavô, e está há três gerações na minha família. O intuito de sua construção: produção de cacau. Seus frutos – literalmente – auxiliaram muitos de meus familiares a ascender economicamente. Há cerca de 25 anos atrás, era possível a obtenção de 4800 arrobas de cacau. Todavia, como para toda a região cacaueira, o auge foi efêmero. Veio a vassoura de bruxa: podridão parda, seca; foi-se a produção, o dinheiro e a glória. Atualmente, a safra não alcança 400 arrobas e a fazenda, cuja intenção inicial era econômica, passou a ser, para mim, berço de infância, museu de minhas memórias e peripécias, enquanto eu percorria todos os cantos, desbravando terras já conhecidas.
        É preciso frisar que entendo e respeito sua importância histórica e econômica para minha família, não obstante as raízes que me fixam a essa terra são puramente emocionais. Ao visitá-la esporadicamente torno-me nostálgica, regresso ao cais de porto que fora minha infância e sinto que a terra me pertence – não através de escrituras – de forma irrevogável e inquestionável.
        O valor imaterial fundamentado nessa terra também me fora “ensinado” por meu pai que, sendo técnico agrícola, soube me cativar com a partilha de seus saberes a ela aplicados. Sempre se mostrou aberto a sanar minhas curiosidades e dúvidas acerca da agricultura e a história de uma terra que antecede (e bastante!) meu nascimento, mas que também está intrínseca na minha história.

        A pertinência, nesse caso, nada tem a ver com garantias, documentos ou provas físicas. Essa terra e eu nos pertencemos mutuamente. Há muito dela em mim e há marcas minhas nela. Visitando-a, visito a mim mesma. Num dos cantos de minha existência que se passaram de fato, todavia nunca deixarão de existir. É melancólico visitar quem você fora. Mas é essencial que assim se faça para que nunca esqueçamos que, dentro de nós, há sempre um pedaço de terra onde mora a pequenez da infância e sua imortalidade cristalizada em memórias. 


Natália Oliveira
______________________________________________________
O cântico da terra
Cora Coralina

Eu sou a terra, eu sou a vida.
Do meu barro primeiro veio o homem.
De mim veio a mulher e veio o amor.
Veio a árvore, veio a fonte.
Vem o fruto e vem a flor.

Eu sou a fonte original de toda vida.
Sou o chão que se prende à tua casa.
Sou a telha da coberta de teu lar.
A mina constante de teu poço.
Sou a espiga generosa de teu gado
e certeza tranquila ao teu esforço.

Sou a razão de tua vida.
De mim vieste pela mão do Criador,
e a mim tu voltarás no fim da lida.
Só em mim acharás descanso e Paz.
 
Eu sou a grande Mãe Universal.
Tua filha, tua noiva e desposada.
A mulher e o ventre que fecundas.
Sou a gleba, a gestação, eu sou o amor.

A ti, ó lavrador, tudo quanto é meu.
Teu arado, tua foice, teu machado.
O berço pequenino de teu filho.
O algodão de tua veste
e o pão de tua casa.
 
E um dia bem distante
a mim tu voltarás.
E no canteiro materno de meu seio
tranquilo dormirás.

Plantemos a roça.
Lavremos a gleba.
Cuidemos do ninho,
do gado e da tulha.
Fartura teremos
e donos de sítio
felizes seremos.