Domingo, 05/10
Diário 1
No início da gravação, o silêncio é absoluto. Passados
alguns segundos, ouve-se o som característico de interferência no rádio. Alguns
pássaros ao fundo. Poucos sons de automóveis. Sensação de tranquilidade e paz – talvez até o
que se definiria como o “marasmo do domingo”.
Diário 2
Sons de carros, vozes, o vento assobiando continuamente,
alguns chiados “indecifráveis”, sons de pássaros, gritos provindo da rua, sons
de televisão, buzinas, inúmeras conversas provindo da rua. O movimento do dia
atribui-se às eleições. O pequeno aglomerado de gente e suas vozes enchendo as
ruas num domingo atípico.
Diário 3
Sons de patas de cavalo, continuamente. Logo em seguida,
carros e motos. Conversas, gritos e bastante movimento nas ruas. Mais sons de
automóveis – um em particular com o motor bastante ruidoso. Combinando o pacato
e a calmaria que penso sentir ao reconhecer o som de patas de cavalo – porque o
atribuo à fazenda e à tranquilidade – com os ruídos da civilização com tantos
carros circulando.
Diário 4
De início, apenas silêncio. Logo em seguida, o silêncio é
cortado por sons de fogos. Barulho de embalagem abrindo. Som de minha própria
respiração. Mais fogos, muitas buzinas. As pessoas comemoram o resultado das
eleições em polvorosa. O que sempre foi muito comum em minha cidade. Ouve-se
gritos e outros ruídos “indecifráveis”.
Diário 5
O áudio começa com meu riso. Foi gravado enquanto meu pai e
eu estávamos conversando no carro. Como sempre, ele me faz rir demais. Faz um
tanto de chacota por não compreender porque eu vou ao Centro Espírita. A voz
dele se faz brincalhona até quando conversamos seriamente (eu rio a começar por
essa voz). Continuo rindo incessantemente escutando comentários como “você vai
ver espírito?”, “você tá indo lá pra namorar no espírito”. Meu pai é hilário. E
eu tenho mais é que rir diante dessas coisas. 90% do áudio é preenchido por
minhas risadas.
Diário 6
Silêncio. Após algum tempo, som de um suspiro. Som da
vibração do celular. Sons que eu produzo ao tentar me ajeitar na cama antes de
dormir – mexendo nos lençóis e travesseiros. Ouve-se, ao fundo, uma das músicas
que gosto bastante tocar no rádio (Ode to My Family – The Cranberries), com
alguns ruídos e chiados de interferência acompanhando a voz da Dolores
O'Riordan. Sons de minha respiração. Silêncio quase absoluto – excetuando-se o
rádio com a música e os ruídos. Som de tosse. Breve instante de silêncio.
Repetindo
a experiência no segundo dia (segunda, 06/10), percebi que os detalhes foram
mínimos. Percebi que é mais difícil do que parece ouvir o mundo de fato. Vozes,
carros, ruídos... Tantos sons nos permeiam! E quase não escutamos: apenas
ouvimos.
Uma
colega pontuou que, talvez, a nossa visão “atrapalhe” a nossa audição:
procuramos, na maioria das vezes, ver o mundo e não necessariamente escutá-lo.
Ver nos distrai da percepção sonora, algumas vezes. Por isso, foi difícil me
ater a detalhes mais precisos e profundos; não houve uma análise mais
criteriosa e/ou minuciosa quando eu pude ver a fonte dos sons.
Alguns
sons se repetiram com certa frequência: carros, motos, conversas, gritos, sons
de televisão e rádio. Todavia, a descrição não fora rica. Ouvi, mas não
escutei, muito menos entendi. Não encontrei mais clareza ao tentar descrever.
Nesse
ínterim, minha conclusão quanto a esse exercício é que sou muito mais desatenta
em alguns aspectos do que eu mesma julgaria. Quase nunca se tem tempo,
acredita-se, para escutar o mundo de fato. Escutar as pessoas e entender o que
elas querem dizer; ser ouvinte atento a mais fatores do que simplesmente
poluição sonora (o canto dos pássaros, por exemplo, é tão singular e
apaziguador e, na maioria das vezes, nem ouvimos nem escutamos); valorizar
também o silêncio, quando se percebe a desarmonia que certos ruídos nos provocam;
sentir alguns sons e associá-los sinestesicamente a outros fatores. A nossa
audição também pode ser treinada para além do que a convencionamos. Da mesma
forma que é preciso enxergar além, também é necessário escutar além. Logo,
busco agora não subjugar um sentido ao outro, mas sim potencializá-los
concomitantemente, completando-os através das percepções oriundas de ambos.
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Os Sons do Silêncio
(autor desconhecido)
Um rei mandou seu
filho estudar no templo de um grande mestre com o objetivo de prepará-lo para
ser uma grande pessoa.
Quando o príncipe
chegou ao templo, o mestre o mandou para uma floresta. Ele deveria voltar
depois de um determinado tempo, com a tarefa de descrever todos os sons da
floresta.
Quando o príncipe retornou
ao templo, após um ano, o mestre lhe pediu para descrever todos os sons que
conseguira ouvir.
Então, disse o príncipe:
- Mestre, pude ouvir o canto dos pássaros, o barulho das folhas, o
alvoroço dos beija-flores, a brisa batendo na grama, o zumbido das abelhas, o
barulho do vento cortando os céus...
E ao terminar de ouvir o relato do príncipe, o mestre pediu-lhe que
retornasse à floresta para ouvir tudo o mais que fosse possível. Apesar de intrigado o príncipe o obedeceu, pensando: "Não entendo, eu já
distingui todos os sons da floresta..."
Por dias e noites, novamente, ficou sozinho ouvindo, ouvindo, ouvindo...
Mas não conseguiu distinguir nada de novo além daquilo que havia dito ao
mestre. Porém, certa manhã começou a distinguir sons vagos, diferentes de tudo
o que ouvira antes.
E quanto mais prestava atenção, os sons mais claros se tornavam. Uma sensação de encantamento tomou conta do rapaz. Pensou: Esses
devem ser os sons que o mestre queria que eu ouvisse...
E, sem pressa ficou ali ouvindo, ouvindo pacientemente. Queria ter
certeza de que estava no caminho certo.
Quando retornou ao templo, o mestre lhe perguntou o que mais conseguira
ouvir.
Respeitosamente, o príncipe lhe disse:
- Mestre, quando prestei atenção pude ouvir o inaudível som das flores se
abrindo, o som do sol nascendo e aquecendo a terra e da grama bebendo o orvalho
da noite...
O mestre, sorrindo, acenou com a cabeça em sinal de aprovação e disse:
- Quando se aprende a ouvir o coração das pessoas, os seus sentimentos
mudos, seus medos não confessados e suas queixas silenciosas, uma pessoa pode
inspirar confiança ao seu redor, entender o que está errado e atender as reais
necessidades de cada um. A nossa morte começa quando ouvimos apenas as
palavras pronunciadas pela boca, sem nos atentarmos para o que se passa no
interior das outras pessoas, a fim ouvirmos os seus sentimentos, desejos e
opiniões reais.
É preciso, portanto, ouvir o lado inaudível das coisas, o lado não
mensurado, mas que tem o seu valor, pois é o lado mais importante do ser
humano.
