Universidade e Sociedade

Paradoxo da Igualdade
   


       Nós, seres humanos, todos dotados de telencéfalo altamente desenvolvido e polegares opositores, iguais perante a lei e no contexto dos direitos humanos, somos sim absolutamente diferentes quando analisamos óticas adversas. Parece não ser tão epifânica a descoberta da diferença entre um ser e outrem – sabendo-se que a própria diversidade é uma das garantias da evolução. Mas a questão transcende.
         Partindo-se desse pressuposto, diante da lógica capitalista, somos julgados a partir do quantitativo, não do qualitativo. Torno-me diferente aos olhos alheios a partir do que tenho e não puramente do que sou. Não se acredita em equidade social porque não se pode obter – dentro do capitalismo – equidade econômica. Desse modo, os seres que compõem uma mesma espécie, todos dotados de telencéfalo altamente desenvolvidos e polegares opositores, tornam-se drasticamente diferentes e ocupam, dentro de nossa sociedade, papeis deveras distintos.
         Nesse ínterim, é o dinheiro o grande divisor de águas de gente e gente. Exatamente isso: gente. Nada nos afasta/difere mais do que o poder aquisitivo, sob a ótica capitalista. $emelhante atrai $emelhante, é o que dizem. E prosseguimos marginalizando, excluindo e subjugando os diferentes. Precisamos de políticas públicas para entender e aplicar a necessidade de inclusão; não entendemos as dificuldades alheias enquanto documentários não são produzidos com esta função reveladora; não somos solidários quando não há retorno material para a solidariedade em si; somos cruéis até mesmo na divisão da produção alimentícia mundial, quando analisamos que a parcela de pessoas obesas supera a parcela de pessoas famintas; somos quantitativos e buscamos sempre quantidades para definir quaisquer pessoas que nos cerquem – perguntamos: quantos anos você tem? Quando você nasceu? Quanto você ganha? (...) –  e nos esquecemos de ser mais qualitativos, atenciosos e humanos –  poderíamos perguntar: como você está? Quais são seus gostos? Qual a sua história?; tudo o que não nos serve ou não nos acrescenta é descartado e, pasmem, isso também se aplica às pessoas; ainda somos como analfabetos funcionais em se tratando de entender o contexto no qual estamos inseridos e nos mostramos apáticos quando o assunto é analisar a realidade conturbada, atribuindo responsabilidades sempre ao que nos é alheio: “a culpa é do sistema”.
         Nessa conjuntura, é cabível refletir: quanto de nós provém do sistema e quanto do sistema provém de nós? Nós também somos o sistema, a partir do momento em que entendemos que ajudamos a compô-lo. Devemos ser conscientes quanto a que parcela de nós podemos transpassar ao sistema e, desse modo, podemos ser ferramentas de transformação do mesmo. Exemplos, em alguns casos, ecoam mais do que palavras. Não podemos ser analisados, por exemplo, simplesmente como burgueses ou proletários, haja vista que somos todos dotados de telencéfalo altamente desenvolvido e polegares opositores. Somos gente. Todos nós. Gente.

          Em suma, é perceptível a influência capitalista até mesmo na nossa forma de enxergar o mundo. Tal lógica atrelada solidamente ao capital é, por vezes, desumana e desarmônica. Suscita diferenciações ideológicas que poderiam não existir se o “ter” não fosse tão mais importante que o “ser”. Mas, tomemos como exemplo a dualidade de quem produz lixo e quem dele vive. Do luxo ao lixo, do lixo ao luxo. Há de se ampliar o campo de visão no intuito de ver além das diretrizes do dinheiro – ou do dinheiro como diretriz. Há quem diga que é impossível não praticar o desperdício e o descarte desenfreado; há quem viva desses excessos, sem se vitimizar: a vida parece simples quando não se tem muito e se partilha pouco que, diga-se de passagem, não é tão aconselhável para se partilhar ou se viver a partir de. São diferentes modos de ver. Sejamos mais humanos ao tratarmos de humanos. Somos os mesmos seres que habitam a Ilha das Flores e as tantas ilhas sociais marginalizadas; somos os abandonados, sejam eles menores ou não; somos também a personificação da miscigenação; não somos apenas o número do nosso RG, ou dados ou estatísticas; somos gente e somos o ‘sistema’. É digno de menção, a esse respeito, que o ‘sistema’ não nos força a ser cruéis, a menos que nos permitamos sê-lo. Pratiquemos, então, a equidade quanto ao ver – somos todos seres dotados de telencéfalo altamente desenvolvido e polegares opositores. Sejamos, pois, o paradoxo dos iguais. 



(Natália Oliveira)


"Não querem nos deixar pensar."

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(Ver)dade

Visão
Vi são o doente que não enxerguei
De fato
(Re)trato o mundo limitado
Meus olhos
Ocultam-me o que não me importa
Negligencio
A realidade do que me cerca
Abro os olhos
A luz ofusca e liberta
Dispo-me das viseiras,
Das vendas – financeiras ou não
(Vi)sto a equidade: revolução muda
Faz-se então
Meu Iluminismo particular,
Minha salvação
Os olhos despertos, libertos
Não há condicionamento que me prenda
Ou me renda em omissão
Epifania:

Enxergar também exige (ver)dade.

Natália Oliveira




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 “Ser culto para ser livre”


Por que iniciar uma reflexão acerca de Paulo Freire utilizando uma citação cuja autoria não lhe pertence? A resposta está na essência. Vejo, após apreender uma parcela dos ideais freirianos, o alicerce indissociável entre conhecimento e liberdade – não necessariamente nessa ordem. 
     Não poderia enumerar todas as epifanias e novas percepções oriundas da leitura de 'Pedagogia da Autonomia', todavia abordarei duas dentre as peculiaridades fascinantes provindas da genialidade humilde e simples de Paulo Freire. Antes de enunciá-los, convém ressaltar que estas são evidenciadas na obra em demasia, tal como um mantra revolucionário e reformador, com a intencionalidade de entender a verossimilhança destes conceitos de forma sequenciada e lógica.
     O primeiro conceito é o de "dodiscência". Vamos lá, o que vem a ser isso na prática? Esse conceito freiriano parte do pressuposto que a aprendizagem pode estar aplicada tanto aos discentes quanto aos docentes, de maneira que não se subjulguem conhecimentos ou se menospreze o apanhado cultural, histórico, social e pessoal que cada um leva consigo. Professores podem sim aprender enquanto ensinam! Tal como alunos podem ensinar ao passo que aprendem... Há uma correlação muito poderosa entre discentes e docentes que pode – e deve – ser potencializada baseando-se principalmente no respeito e na promoção da equidade. 
     A segunda peculiaridade marcante advinda da Obra freiriana é a "necessidade de reconhecer-se incompleto". Partindo-se dessa premissa, faz-se imprescindível enxergar na incompletude (limitações de quaisquer âmbitos e, nesse caso, com enfoque na área educacional) a capacidade e a força motriz para ir além. Não é fraqueza reconhecer a ignorância, todavia é fraco quem sucumbe a ela por orgulho ou pretensão ou, ainda, inércia.  Transformemos a nossa incompletude em combustível. Sejamos sempre famintos e sedentos por conhecimento!
     Além disso, após tamanho aprendizado freiriano, sinto enorme gratidão por fazer parte e ajudar a edificar uma Universidade que adere a esses e a tantos outros nobres conceitos de maneira ousada, revolucionária e libertária. Reconhecer também a popularidade dos ideais de Freire e sua difusão pelo mundo surpreende e emociona! 
     Assim sendo, retornemos ao título. "Ser culto para ser livre". Que tem a ver conhecimento e liberdade afinal e como responder a tal pergunta de modo a contemplar os ideais de Paulo Freire? Adquire-se liberdade a partir do momento que se edifica o conhecimento. Ora, não se pode ser livre ou conquistar a liberdade excetuando-se a necessidade de sapiência do processo. Não menos importante é a necessidade de permear o conhecimento com liberdade e autonomia. Construa. Busque. Dispa-se da ignorância e medo oriundos de suas limitações. Nada mais justo do que ser responsável por construir agora quem você será futuramente. Sigamos para sempre e além; sigamos para além e sempre.


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Anísio Teixeira: o progresso do ensino superior mediante ideais progressistas e inovadores

         A Universidade – seus papeis, responsabilidades e sua importância na edificação do saber – deve mostrar-se altamente capaz de reinvenção e dinamismo conforme a transitoriedade dos tempos e as necessidades específicas de cada período.
         Através do discurso de Anísio, pudemos apreender as noções do conceito e da situacionalidade da universidade no Brasil desde sua completa negação – a relutância e o ceticismo de nosso governo e nossa sociedade, no século XIX – somando-se aos preconceitos enraizados à universidade medieval, até seu surgimento oficial em nosso país apenas em 1920.
         O primeiro ponto anisiano que acredito vivenciar na UFSB diz respeito ao conceito de pesquisa: “a universidade só será de pesquisa quando passar a formular a cultura que vai ensinar.” (TEIXEIRA, Anísio, 1968, p. 6). A Atividade de Orientação Acadêmica tem sido um exemplo claro e simples de construção de conhecimentos a partir da relação entre a Universidade e a comunidade de Ferradas. Tal definição de pesquisa desconstrói algumas das minhas visões anteriores acerca dela: acreditava ser “pesquisa” puramente a prática em laboratórios e afins. Percebo, então, que a “pesquisa” está aquém do saber estritamente teórico e científico; “pesquisa” revela-se também como construção e diálogo cultural.
         No que tange à roupagem totalmente diferenciada da Universidade Federal do Sul da Bahia frente ao tradicionalismo vigente, é possível perceber mais um ideal anisiano ao considerar que tal modelo de renovação só se faz possível a partir da reforma dos conteúdos que a Universidade transmitirá. Nesse sentido, os nossos Componentes Curriculares demonstram tal reinvenção de teorias, ideias e conteúdos, e nos aproximam de nossa sociedade à medida que nos entendemos como seres transformadores de nossa realidade.
         Ao refletir acerca da expansão do ensino superior no Brasil na concepção de Anísio, posso perceber que a UFSB não é um mero acréscimo nesse âmbito. Para Anísio, antes de apostar unicamente na expansão do ensino, deve-se prezar a capacidade da(s) nova(s) universidade(s) de atender às necessidades da sociedade vigente. Partindo-se desse pressuposto, a UFSB nasce no intuito de romper tradições obsoletas, trazendo para a região cacaueira a possibilidade de reinvenção, a assimilação de novos conceitos e a capacidade de transformação a partir de um ensino transformador, a fim de atender às carências presentes na região. Ratificando, não se trata de um mero acréscimo à quantidade de universidades federais no Brasil; a UFSB é a edificação de um modelo mais autônomo e verossímil de ensino, digno de difusão e apoio.
         Além disso, um ideal anisiano – na verdade, importado da Universidade de Humboldt – fortemente presente e vivenciado na UFSB e passível de destaque é “a liberdade de ensinar e liberdade de aprender”. (TEIXEIRA, Anísio, 1968, p. 15). Tal ideal alicerça-se e complementa-se em nossa Universidade com as ideias freirianas na promoção de sua “pedagogia da autonomia”. Desse modo, devemos nos apossar dessa liberdade de aprendizagem para potencializar a sapiência apreendida no meio acadêmico.
         Ademais, ao ressaltar a importância da reinvenção dos modelos universitários, Anísio Teixeira brilhantemente destaca a necessidade de renovação das posturas dos corpos docente e discente. Para que a reforma universitária tenha êxito, todos os envolvidos devem permitir-se reformar: aceitar o novo, auxiliar a moldá-lo e exercer suas respectivas responsabilidades a fim de prosperar concomitantemente à reforma. O professor deve abandonar a postura de sabedor de todas as coisas e mero expositor do conhecimento, assim como o aluno deve abandonar a apatia e a omissão de esperar e simplesmente absorver – sem qualquer criticidade – o conhecimento que lhe é ofertado no meio acadêmico.
         Em suma, em minha concepção, vivemos agora em um momento em que o modelo tradicional vigente já não se mostra tão eficaz e verdadeiramente útil à sociedade, como ocorreu às universidades medievais. Desse modo, tal como a Universidade de Humboldt objetivou quebrar os paradigmas atrelados ao meio acadêmico à época, a UFSB surge num momento em que uma nova quebra de paradigmas tecnicistas se faz necessária ao progresso da sociedade. É necessária a promoção da educação autônoma e libertária, e da formação de profissionais mais humanizados e capazes de desenvolver suas práticas a fim de transformar e aprimorar seu meio social, suas localidades, seu país! Há de se destacar, por fim, a citação de Anísio: “a educação não é só um bem para o indivíduo, mas uma necessidade para a sociedade”. (TEIXEIRA, Anísio, 1968, p. 15).


(Natália Oliveira)


Perspectivas


       É estranho imaginar que as pessoas não tenham planos ou perspectivas para o futuro "pós-colégio". Mas acontece. E com uma frequência mais desagradável do que gostaríamos.
       Com a visita aos colégios, objetivamos transpassar alguma esperança e alternativa para aqueles que acreditam estar obrigatoriamente excluídos de todos os setores possíveis dentro de nossa sociedade.
         Com isso, foi gratificante vê-los perceber que ainda há alternativas, ainda há caminhos, ainda há possibilidades, ainda há muita vida e muitos novos planos e objetivos a traçar e vencer. Despindo-se do ceticismo e da inércia, muitos vieram a mim depois da apresentação e tiraram suas dúvidas... " Uma Universidade federal? E eu realmente tenho chance?" Em se tratando de qualquer outra universidade, as possibilidades poderiam ser muito menores... Mas em se tratando de UFSB, a inclusão é prioridade e, sim, todos têm sua chance.
       Fico grata por participar da construção de uma sociedade mais justa, mediante reparações como essa - e tantas outras dentro da própria UFSB - e aprendendo a cultivar o respeito e a convivência com a miscigenação, que compõe a sociedade brasileira há tantos séculos e, ainda assim, causa desconfortos para tantos que dela não sabem apreender as mais básicas lições.
      Por fim, retorno às perspectivas. Precisamos tê-las como diretrizes para nossos caminhos futuros... Precisamos da força motriz que é a esperança na melhora. E, diante das injustiças sociais, há de se persistir. Afinal, como (muito bem) dito pelo inigualável Charles Chaplin, "a persistência é o caminho para o êxito".
     

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