A pequena fração de terra
que escolhi pertence à Fazenda São Bento, e por que não dizer também, à minha
infância?
A fazenda
foi construída por Antônio Jorge Midlej, meu bisavô, e está há três gerações na
minha família. O intuito de sua construção: produção de cacau. Seus frutos – literalmente
– auxiliaram muitos de meus familiares a ascender economicamente. Há cerca de
25 anos atrás, era possível a obtenção de 4800 arrobas de cacau. Todavia, como
para toda a região cacaueira, o auge foi efêmero. Veio a vassoura de bruxa:
podridão parda, seca; foi-se a produção, o dinheiro e a glória. Atualmente, a
safra não alcança 400 arrobas e a fazenda, cuja intenção inicial era econômica,
passou a ser, para mim, berço de infância, museu de minhas memórias e
peripécias, enquanto eu percorria todos os cantos, desbravando terras já
conhecidas.
É preciso
frisar que entendo e respeito sua importância histórica e econômica para minha
família, não obstante as raízes que me fixam a essa terra são puramente
emocionais. Ao visitá-la esporadicamente torno-me nostálgica, regresso ao cais
de porto que fora minha infância e sinto que a terra me pertence – não através
de escrituras – de forma irrevogável e inquestionável.
O valor
imaterial fundamentado nessa terra também me fora “ensinado” por meu pai que,
sendo técnico agrícola, soube me cativar com a partilha de seus saberes a ela
aplicados. Sempre se mostrou aberto a sanar minhas curiosidades e dúvidas
acerca da agricultura e a história de uma terra que antecede (e bastante!) meu
nascimento, mas que também está intrínseca na minha história.
A
pertinência, nesse caso, nada tem a ver com garantias, documentos ou provas
físicas. Essa terra e eu nos pertencemos mutuamente. Há muito dela em mim e há
marcas minhas nela. Visitando-a, visito a mim mesma. Num dos cantos de minha
existência que se passaram de fato, todavia nunca deixarão de existir. É
melancólico visitar quem você fora. Mas é essencial que assim se faça para que
nunca esqueçamos que, dentro de nós, há sempre um pedaço de terra onde mora a
pequenez da infância e sua imortalidade cristalizada em memórias.
Natália Oliveira
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O cântico da terra
Cora Coralina
Eu sou a terra, eu sou a vida.
Do meu barro primeiro veio o homem.
De mim veio a mulher e veio o amor.
Veio a árvore, veio a fonte.
Vem o fruto e vem a flor.
Eu sou a fonte original de toda vida.
Sou o chão que se prende à tua casa.
Sou a telha da coberta de teu lar.
A mina constante de teu poço.
Sou a espiga generosa de teu gado
e certeza tranquila ao teu esforço.
Sou a razão de tua vida.
De mim vieste pela mão do Criador,
e a mim tu voltarás no fim da lida.
Só em mim acharás descanso e Paz.
Eu sou a grande Mãe Universal.
Tua filha, tua noiva e desposada.
A mulher e o ventre que fecundas.
Sou a gleba, a gestação, eu sou o amor.
A ti, ó lavrador, tudo quanto é meu.
Teu arado, tua foice, teu machado.
O berço pequenino de teu filho.
O algodão de tua veste
e o pão de tua casa.
E um dia bem distante
a mim tu voltarás.
E no canteiro materno de meu seio
tranquilo dormirás.
Plantemos a roça.
Lavremos a gleba.
Cuidemos do ninho,
do gado e da tulha.
Fartura teremos
e donos de sítio
felizes seremos.
Oi Natália! Lindo teu relato...
ResponderExcluirMuito obrigada, professora Fabiana!
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